Leitura da Realidade

No dia 03 de outubro próximo a Universidade do Estado da Bahia estará promovendo o evento democrático de escolha dos seus governantes para o período 2018-2021. Momento singular, tendo em vista o cenário político nacional, quando o país atravessa uma de suas mais graves crises em termos morais, políticos e econômicos.

Período privilegiado para estabelecer a devida crítica à complexa conjuntura nacional que afeta as universidades públicas. O processo eleitoral é, genuinamente, uma oportunidade de reflexão, mais propicio a ressaltar os problemas e desafios do que louvar conquistas passadas. É, pois, tempo de debates necessários, francos e transparentes visando soluções capazes de enfrentar situações complexas de forma qualificada, como a crise do financiamento universitário e a precarização do trabalho dos docentes, técnicos, analistas e terceirizados.

Ressaltamos que a avaliação demanda vontade política e atitude colaborativa e corajosa para expor contradições. Nesse ensejo, propomos discutir coletivamente um projeto de universidade que permita o seu fortalecimento institucional.

Ponderamos que fora implantado na UNEB, no último período de gestão, um modelo excessivamente burocrático e centralizado como ferramenta de poder e controle visando acompanhar as atividades-fim e atividades-meio. Esse modelo interferiu negativamente na capacidade produtiva de gestores, servidores, com perdas para a dimensão das relações de trabalho (pessoal desestimulado) e dimensão acadêmica (ensino, pesquisa, extensão, inovação).

Em pesquisa de 2016, realizada pelo Observatório de Gestão Universitária Multicampi sob a coordenação da professora Carla Liane com objetivo de avaliar a gestão, foram ouvidos 50 gestores (membros da equipe central de gestão, coordenadores de colegiados, diretores, assessores, coordenadores de centros, coordenadores de secretarias, coordenadores financeiros e administrativos). Observamos em duas questões específicas, as principais dificuldades da gestão e as principais necessidades, ou “remédios”; ambos apontados livremente pelos entrevistados.

Entre os elementos mais frequentes sugeridos como dificuldades estavam, nesta ordem: 1) desmotivação das equipes, 2) falta de formação para a gestão e 3) ausência de unidade, “falta de rumo” e excessiva centralização. Como possíveis soluções formam citados com maior frequência entre os gestores: 1) Formação e treinamento em serviço para gestores, 2) melhoria da comunicação e integração entre as diversas instâncias com autonomia e 3) Reengenharia, melhor uniformidade nos procedimentos e gestão dos processos.

Estudos revelam que as organizações públicas no Brasil são recorrentemente permeadas por características ligadas a burocracia com autoritarismo centralizado, interferindo negativamente no modo como os trabalhadores atuam e prejudicando os resultados.

A análise deste cenário nos motiva a reflexões e busca de soluções. Defendemos um equilíbrio necessário das várias formas de atuação da universidade e uma estrutura mais moderna com atitudes pró ativas. Que a organização administrativo-gerencial atue de forma a colaborar com a atividade acadêmica e não se sobreponha a esta.

O foco da nossa plataforma é, pois, uma gestão redimensionada com redução burocrática, descentralização e maior flexibilidade com destaque para o papel de cada parceiro gestor, docente ou técnico; colaboradores implicados são fundamentais para o sucesso das instituições públicas e privadas. A formação continuada para o gestor é um elemento estratégico, pois foi reiteradamente citada nas entrevistas e processo de escuta sensível realizado nos setores da universidade nos últimos meses.

Ademais, a renovação proposta deverá ter como base a democracia e o diálogo construtivo, buscando a superação das tensões, o entendimento e a conciliação. Por esse motivo, a participação de todos os segmentos nas decisões da universidade que afetam o destino de todos é imprescindível. Isso demanda a revisão da estrutura de poder. Precisamos resgatar, por um lado, a autonomia dos vários órgãos e instâncias decisórias e, por outro lado, nossa capacidade de interagir com a sociedade e o poder público, de forma a alcançar a excelência acadêmica.

Outra questão importante refere-se a repensar a nossa multicampia, no sentido de reforçar as potencialidades regionais. Significa colocar em prática os Pólos Acadêmicos Regionais, potencializando ações entre departamentos nos diversos territórios de identidade. A produção do conhecimento gerada na universidade deve estar ligada às demandas das regiões, com vistas à melhoria da vida dos indivíduos, ao desenvolvimento econômico e social e ao fortalecimento das liberdades humanas.

Com base nestas considerações iniciais, inscrevemos nossa Carta de Compromissos, cujas propostas devem ser entendidas como uma etapa de um contínuo trabalho de pensar a universidade que desejamos, tomando como base seus principais instrumentos de planejamento: o PDI, o Plano de Metas, o Plano Estratégico.